
Historicamente, a investigação translacional tem início com a abordagem
hermenêutica de distintas áreas do conhecimento como a linguística (estudo da linguagem verbal humana), semiótica (estudo dos signos e da semiose) e teorias da
informação (estudo e conceituação matemática da informação) e da comunicação
(estudo dos efeitos, origens e funcionamento do fenômeno da comunicação social),
o que possibilitou uma melhor interpretação dos sentidos e significados dos diferentes textos escritos na humanidade, tornando mais eficiente, assim, a tradução desse
material entre os vários idiomas.(1) No âmbito da saúde, a palavra translacional foi
empregada, inicialmente, em 1975, para se referir à transferência, intercambiamento
e interpretação dos dados obtidos tanto em pesquisas básicas quanto médicas na
área da endocrinologia clínica e diabetes.(1,5) Na década de 1990, o termo foi empregado na literatura para descrever os esforços científicos para o desenvolvimento de
novas drogas antineoplásicas. Consecutivamente, na década de 2000, o termo foi
sistematizado e seu escopo definido, passando a ser utilizado em cardiologia, neurologia, psiquiatria, patologia clínica e em muitas outras áreas da medicina.(6,7)
Resumidamente, então, a investigação translacional se caracteriza como um
processo bifásico, já que os novos conhecimentos passam da ciência básica para a
ciência clínica (bench to bedside - do laboratório à beira do leito) e da ciência clínica
para a saúde dos pacientes e saúde pública (bedside to practice - da beira do leito à
assistência à saúde), e bidirecional, pois o fluxo de informação migra do laboratório à
clínica e da clínica volta ao laboratório (bench - bedside - back again).(3,8,10) Para o
funcionamento desse processo, a investigação T1 requer laboratórios universitários
ou de centros de pesquisa que trabalhem com biologia molecular, citologia, bioquímica, biofísica, farmacologia, microbiologia e/ou imunologia com infraestrutura e
tecnologia de ponta. A investigação T2, em contrapartida, tem como laboratório de
ensaio o hospital e o ambiente da comunidade, associado a intervenções baseadas
nos grupos humanos e populacionais, epidemiologia, estatística, observação e evidência clínica, psicologia e ciências do comportamento, investimento privado, políticas governamentais e financiamento público.(1,3,8)
Particularmente no âmbito das análises clínicas, essa transferência de conhecimentos entre as ciências básica e clínica, a partir de investigações translacionais,
tem produzido impactos nas áreas de imunologia, endocrinologia, oncologia, neurologia e neurociências e reprodução humana.(6) Os resultados de investigações
translacionais em análises clínicas irão refletir diretamente no manejo dos pacientes,
já que essas investigações contribuem para uma melhor compreensão e percepção
dos mecanismos fisiopatológicos e das complexas interações que ocorrem nos sistemas biológicos.(10) Como um exemplo, a pesquisa por novos marcadores bioquímicos
e/ou tumorais e sua aplicação no biodiagnóstico tem papel chave no controle,
monitoramento e segurança dos pacientes, bem como na predição da eficácia de
tratamentos frente a diferentes tipos de doenças neoplásicas, degenerativas e
cardiovasculares.(6,9) As análises clínicas translacionais podem fornecer maior apoio científico às intervenções médicas, informando em que contexto essas intervenções
irão ser mais efetivas, quando elas deverão ser procedidas e por quanto tempo deverão ser estabelecidas. As pesquisas translacionais na área do laboratório clínico
têm como objetivo demonstrar de que maneira um grupo de variáveis bioquímicas e
moleculares pode contribuir para a escolha da melhor intervenção clínico-cirúrgica e/
ou farmacológica.(10)
Alguns artigos:
Cystatin C: a promising biomarker to evaluate renal function
Mecanismos de resistência de Candida albicans aos antifúngicos anfotericina B, fluconazol e caspofungina
Estudo in vitro do efeito do ácido ascórbico sobre os parâmetros de ureia e creatinina
Avaliação epidemiológica, hematológica e imunofenotípica de pacientes adultos portadores de leucemia aguda diagnosticados no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, Brasil
Análise da proteinúria após exercício físico intenso
Hemoglobinopatias: relato de caso familiar
Disponível em:
Revista Brasileira de Análises Clínicas 2017; 49 (3)